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Frigoríficos exportadores para a União Europeia não apresentam provas suficientes de que cumprem a lei do bloco contra o desmatamento
18/03/26Estudo do Radar Verde avaliou 15 plantas frigoríficas em Mato Grosso. Nenhuma apresentou evidências de controle sobre as fazendas fornecedoras indiretas
Um levantamento do Radar Verde revela que plantas frigoríficas da Amazônia Legal autorizadas a exportar carne bovina para a União Europeia apresentam baixo nível de controle sobre o desmatamento em suas cadeias de fornecimento. A análise conclui que nenhuma das unidades avaliadas apresentou evidências públicas suficientes para demonstrar que atendem aos requisitos da nova regulamentação europeia contra o desmatamento e também nenhuma respondeu ao questionário enviado pelo Radar Verde para apresentar comprovações sobre o controle socioambiental de suas cadeias de fornecimento. A norma europeia deverá exigir rastreabilidade completa da produção nos próximos anos.
O estudo avaliou 15 plantas frigoríficas pertencentes a oito empresas, todas localizadas em Mato Grosso e habilitadas a exportar para o mercado europeu em 2025. Juntas, essas unidades possuem capacidade de abate de 11.250 animais por dia. Segundo a análise, 13 apresentam baixo controle e duas plantas frigoríficas apresentam controle muito baixo da cadeia, de acordo com os critérios de avaliação do Radar Verde.
Monitoramento limitado e risco elevado de desmatamento
O estudo aponta, ainda, que o risco de novo desmatamento dentro das zonas potenciais de compra de gado desses frigoríficos varia de 31 mil a 2,8 milhões de hectares. A pesquisa identificou, ainda, que 12 plantas frigoríficas demonstram algum nível de controle sobre fornecedores diretos, que são as fazendas que vendem animais diretamente às indústrias. No entanto, nenhuma empresa apresentou evidências robustas, como auditorias independentes, de monitoramento de fornecedores indiretos, que são as fazendas onde o gado nasce ou é criado antes da fase final de engorda.
De acordo com a análise, essa lacuna cria espaço para a chamada “lavagem de gado”, quando animais provenientes de áreas com desmatamento passam por propriedades intermediárias antes de serem vendidos aos frigoríficos, dificultando a rastreabilidade ambiental da produção.
O relatório também analisa iniciativas brasileiras voltadas à rastreabilidade da cadeia da carne, incluindo plataformas públicas e programas nacionais de identificação animal. Segundo o estudo, embora existam avanços institucionais, nenhuma dessas iniciativas oferece atualmente uma solução completa e imediata para atender às exigências da regulamentação europeia, especialmente no monitoramento de fazendas fornecedoras indiretas.
Regulamentação europeia exigirá rastreabilidade completa
A União Europeia está adotando novas regras para impedir a entrada de produtos associados ao desmatamento em seu mercado. A chamada Regulamentação Europeia contra o Desmatamento (EUDR) exigirá que empresas comprovem, com dados e geolocalização, que commodities como carne bovina não foram produzidas em áreas desmatadas.
A norma deverá entrar em vigor a partir de 30 de dezembro de 2026 para grandes empresas e de 30 de junho de 2027 para pequenas e microempresas, exigindo sistemas de rastreabilidade capazes de identificar todas as propriedades por onde o gado passou ao longo da cadeia produtiva.
Embora represente uma parcela menor das exportações brasileiras de carne bovina, a União Europeia vem ganhando importância como destino comercial. Em 2025, o bloco importou 128,9 mil toneladas de carne bovina brasileira, movimentando cerca de US$ 1,06 bilhão e registrando crescimento de 132,8% em relação a 2024. Nesse contexto, o relatório destaca que o acesso ao mercado europeu tende a depender cada vez mais da capacidade das empresas de demonstrar, com evidências verificáveis, cadeias de fornecimento livres de desmatamento.
Recomendações da análise
O próprio estudo aponta caminhos para avançar na rastreabilidade da cadeia da carne bovina. Segundo o relatório, uma estratégia seria priorizar a integração de bases de dados já existentes, como os registros de movimentação de gado (GTA), os cadastros de propriedades rurais (CAR) e informações sobre desmatamento e áreas embargadas, permitindo aproximar a análise do risco de desmatamento ao nível das transações e ampliar a visibilidade sobre fazendas fornecedoras indiretas. A análise também sugere que avaliações comparativas entre empresas, como o próprio Radar Verde, podem ajudar a orientar ações de fiscalização, acordos de compartilhamento de dados e incentivos de mercado, direcionando esforços para as regiões e empresas onde os riscos são mais elevados e as melhorias podem gerar maior impacto.
Sobre o Radar Verde
O Radar Verde, iniciativa do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) e do Instituto O Mundo Que Queremos, é um indicador público e independente que avalia a transparência e o controle socioambiental de frigoríficos e supermercados na cadeia da carne bovina, a partir da análise de políticas empresariais de combate ao desmatamento e da busca de evidências públicas de implementação dessas políticas, incluindo monitoramento de fazendas fornecedoras diretas e indiretas.
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